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Copa do Mundo

O sucesso do projeto de futebol da Alemanha

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Seleção da Alemanha

Há 20 anos, a Alemanha resolveu mudar sua realidade de futebol. Tendo a consciência de que as coisas não iam bem, a seleção criou um projeto de revelação de jogadores que, hoje, é um exemplo para o mundo todo.

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No último domingo, o Bayern de Munique ganhou a sua sexta Champions League, contra o Paris Saint German. O time alemão ficou famoso por ter uma equipe extremamente coletiva, organizada e compacta. O fruto desse sucesso vem, no meio de outros motivos, do uso de muitos alemães no time, consequência de um projeto feito no país, há 20 anos, para mudar a realidade do futebol local. No time titular que jogou a final contra o PSG, o Bayern contou com seis alemães (Neuer, Kimmich, Boateng, Goretzka, Muller e Gnabry).  O sucesso do resultado desse projeto alemão não se vê somente no Bayern de Munique, mas sim na seleção e também na Bundesliga, hoje uma das ligas europeias mais rentáveis do mundo.

Regressamos alguns bons anos, no final do século XX. A Alemanha era a grande potência da Europa, sendo a principal seleção do continente, que, inclusive, venceu a Copa do Mundo de 1990, sediada na Itália. Mas a realidade do final do milênio estava mudando, com o futebol alemão atrasado em relação aos outros e não conseguindo acompanhar as novas evoluções do esporte. A Eurocopa de 2000 foi, finalmente, o divisor de águas. A Alemanha fez uma campanha humilhante, perdendo dois jogos (Inglaterra e Portugal) e empatando um (Romênia), sendo assim eliminada ainda na fase de grupos. Com isso, a grande seleção alemã percebeu que precisava mudar sua realidade de futebol caso quisesse voltar a ser favorita das competições e revelar bons jogadores.

Clubes, dirigentes e pessoas influentes dentro do futebol se reuniram após o fiasco da Eurocopa para tentar achar uma saída para o decadente futebol alemão. A melhor e mais eficiente solução tomada foi o investimento na categoria de base da Alemanha, pensando em um projeto a longo prazo. A ideia foi revelar jogadores, começar desde cedo para um sucesso do futebol no país. Ao invés de gastar fortunas em atletas estrangeiros, foi estabelecida uma meta de aproveitar jovens para que pudessem brilhar 10, 15 anos depois.

Foram investidos, desde 2000, mais de 1 bilhão de reais na base. Todos os clubes eram obrigados a ter uma formação de jovens jogadores, principalmente entre 7 e 15 anos. Além disso, a Alemanha sempre prezou pela educação dessas crianças. Eram proibidas de falar com a imprensa para evitar constrangimentos, exposições e especulações e deveriam apresentar sempre relatórios da escola. Se não fossem bem nos estudos, não jogariam futebol. Os alemães também incluíram os filhos de estrangeiros nesse projeto. Não houve distinção entre os jovens jogadores e, para os idealizadores desse projeto, ter atletas jovens “estrangeiros” seria extremamente positivo para levar ao modelo de futebol alemão mais leveza e formas de jogar distintas. E foi assim que conseguiram se recuperar da crise do final do século XX e revelar jogadores que, hoje, estão na lista de melhores da atualidade.

Alguns exemplos claros disso vimos na Copa do Mundo de 2014, o primeiro fruto conquistado desse projeto da Alemanha. A seleção foi campeã e, como todos sabem, marcando sete gols contra o Brasil na semifinal. Thomas Muller e Manuel Neuer são dois exemplos de jogadores alemães que tiveram sua formação de base no início dos anos 2000 e conquistaram o mundo com a Alemanha e ainda jogam em grande nível no Bayern de Munique, Neuer considerado um dos melhores goleiros do mundo e Muller artilheiro da Copa de 2010 (quando ainda tinha apenas 20 anos). Mesut Ozil, Lukas Podolski e Jerome Boateng (de famílias turca, polonesa e ganesa, respectivamente) foram alguns exemplos de descendentes de estrangeiros que participaram desse projeto da Alemanha. Miroslav Klose, apesar de não ter integrado a base da Alemanha a partir de 2000, deve ser lembrado aqui também, já que é o maior artilheiro da história da Copa do Mundo (com 16 gols pela Alemanha) e vem de uma família polonesa.

Na Copa de 2018, a seleção alemã foi eliminada ainda na fase de grupos. Mas isso não significa que o projeto teria tido fim. Algumas escolhas do técnico Joachim Löw podem ter pesado nessa desclassificação, já que manteve alguns jogadores mais velhos que eram considerados titulares absolutos, sendo que a nova geração da Alemanha é tão boa quanto a que ganhou a Copa de 2014. Porém, essa eliminação histórica pode ter servido para o técnico aprender que os jovens jogadores precisam ter espaço na seleção. E foi isso que aconteceu. Timo Werner, Serge Gnabry, Kai Havertz, Josua Kimmich e Leon Goretzka são alguns exemplos dessa nova geração que podem levar a Alemanha em busca de um pentacampeonato da Copa e igualar o Brasil.

Mas o projeto de futebol não acaba por aqui. Há dois anos, o país criou a “Academia DFB”, a nova sede e centro de treinamentos e estudos, em Frankfurt. O projeto reúne especialistas de diferentes áreas, como psicologia, medicina, esporte e comunicação, para trabalhar estratégias de otimização de desempenho. O objetivo é ser líder na análise digital no futebol, auxiliando jogadores a melhorar seu desempenho dentro de campo usando de tecnologias que podem explicar o porquê disso. O projeto é tão grande que é chamado de “Vale do Silício do futebol”. Com isso, espera-se que a Alemanha se torne a maior potência mundial referente a futebol e tecnologia.

Esse projeto gigantesco de futebol que é consolidado há 20 anos mostra que uma boa organização pode sim mudar a realidade de futebol de um país. A Bundesliga, o campeonato da Alemanha, é um dos mais rentáveis do mundo e, apesar de o Bayern de Munique ganhar há muitos anos consecutivos, vemos times que têm uma estrutura extremamente capacitada e com muitos jogadores alemães, fato raro em algumas ligas da Europa. Exemplo para o mundo todo de uma busca pelo sucesso do esporte e, consequentemente, da realização de muitos sonhos de jovens atletas.

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